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quarta-feira, 22 de março de 2017

PATRONOS DA ALANEG - BIOGRAFIAS PARCIAIS

Perfis Biográficos de alguns dos Patronos da ALANEG:

José Sebastião Pinheiro de Souza, Cadeira 44
Patrono: Zenir João Pascoal

Zenir João Pascoal (Tupanciretã-RS, 27/8/1938 – Formoso-MG, novembro de 2013): líder político em Formoso-MG, professor, fazendeiro e ex-diretor escolar. Em solo gaúcho, sua terra natal, trabalhou mais de vinte anos como educador, sendo a maior parte do tempo como diretor da Escola Londeiro em Maurício Cardoso-RS e no Colégio Estadual Cacique Sepé Tiaraju, em Tupanciretã-RS. Adepto do cooperativismo, foi por vários anos membro do quadro dirigente e palestrante das cooperativas de Ijuí e Tupanciretã. Zenir liderou a chegada da segunda família de imigrantes sulistas que se fixaram em Formoso em 1980. O clã Pascoal, grupo bem representativo que impactou a imigração local, notabilizou-se no desempenho de atividades políticas e econômicas.
Em Formoso, Zenir Pascoal foi um dos principais apoiadores locais da criação da primeira cooperativa neste município entre 1989-1990; foi vereador por dois mandatos (1993-1996; 1997-2000); foi vice-prefeito (2001-2004); Foi presidente da Câmara Municipal por várias vezes destacando-se como mobilizador de projetos de integração regional; e foi, sobretudo, uma liderança sindical proativa desempenhando por décadas a função de presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Formoso. Foi também um dos principais patrocinadores do segundo jornal criado no município pelo escritor Xiko Mendes. A morte de Zenir Pascoal, em 2013, deixou um imenso vazio nas ações de mobilização comunitária em Formoso e região.

Fonte: MENDES, Xiko. Formoso de Minas no final do século XX: 130 Anos!. Formoso-MG: Prefeitura Municipal, 2002, páginas 293-294.


Ana Celuta Fulgêncio Taveira – Monte Alegre de Goiás
Cadeira 46
Patrono: Firmiano José de Almeida

Firmino José de Almeida (viveu e morreu no século XIX). Firmiano é o mais antigo e o mais anônimo na Lista de Patriarcas Colonizadores no povoamento da fronteira Bahia-Goiás-Minas Gerais (Região da Trijunção). Ali chegou em data incerta talvez até no final do século XVIII. Não se sabe, mas é muito provável que tenha sido descendente direto do bandeirante paulista MATHIAS CARDOSO DE ALMEIDA, primeiro dono do Norte-Noroeste de Minas a partir de 1690. Os descendentes de Mathias lideraram uma conspiração contra a Coroa Portuguesa entre abril e julho de 1736, em São Romão-MG. A derrota desse motim do sertão fez com que os descendentes dele se dispersassem por toda a região, inclusive na Trijunção BA-GO-MG.
Firmiano assenhoreou-se do território que fica no meio de nascentes que se deslocam para três bacias hidrográficas: rios Paranã (Goiás), Urucuia (MG) e Carinhanha (BA). Ali se tornou o primeiro “Senhor do Sertão” (que nos anos 1940/50 encantaria Guimarães Rosa) no Brasil Central, fim de mundo e ponto de conexão entre o Nordeste sanfranciscano e pastoril, e o Centro-oeste minerador.  No meio de suas fazendas, transitou boa parte do ouro e outras riquezas de Goiás e Mato Grosso no período oitocentista. A Estrada Real da Bahia ou Estrada Geral do Sertão, que ligava Bolívia e Centro-oeste brasileiro ao Nordeste e Europa, foi oficializada por D. João VI, em abril de 1736, e passava dentro das terras dele.
Firmiano fixou residência na fazenda que a partir de 2002 passou a ser o Assentamento Gentio-São Francisco. Dali comandou na primeira metade do século XIX toda a colonização do território da Trijunção BA-GO-MG que hoje está dentro do PARQUE NACIONAL GRANDE SERTÃO VEREDAS – PARNA-GSV (unidade de conservação, criada em 1989, com 230,6 mil hectares, incluindo terras de Formoso, Arinos e Chapada Gaúcha, em MG; e de Cocos-BA). O dito assentamento tem 91 famílias deslocadas do Parque e é um dos pontos de visitação turística por se tratar de umas das mais expressivas comunidades tradicionais do Gerais na Trijunção.
Firmiano casou-se duas vezes e deixou numerosa descendência em Formoso, Sítio da Abadia-GO, Arinos, Januária, Oeste Baiano... São descendentes dele, por exemplo, os escritores Xiko Mendes e Maria Zeneide Carneiro de Almeida Magalhães (membros efetivos da ALANEG), João Rocha, João Borges Carneiro, Napoleão Valadares, Valdivino Mendes e Miguel Carneiro. Dentro do PARNA-GSV, como testemunha externa de seu domínio, ainda existe a Vereda do Firmiano, corpo d’água cristalina que desce para o rio Carinhanha, o rio dos Caiapós, e dali vai ao Velho Chico, depois de percorrer mais de 400 Km entre a Serra Geral de Goiás e o Nordeste.

Fonte:
MENDES, Xiko. Formoso de Minas no final do século XX: 130 Anos!. Formoso-MG: Prefeitura Municipal, 2002, páginas 293-294.
CARNEIRO, Miguel. Formoso: Dois Séculos de História. Goiânia-GO: edição do autor, 2005.


Lourdes Fernandes de Souza
(Bia – Comunidade Kalunga) – Monte Alegre de Goiás, Cadeira 48
Patrono: Abdias Magalhães Ornelas

Abdias Magalhães Ornelas (Paracatu-MG, 23/10/1912, Formoso-MG: 7/11/1994). Natural de Formoso, então distrito paracatuense, Seu Abdias foi o “médico de toda a população da Região da Trijunção” (fronteira entre Bahia, Goiás e MG) por mais de quatro décadas, tratando doenças e pacientes em Formoso, Sítio da Abadia, Arinos, Mambaí, Damianópolis, e de outros lugares distantes mais de 300 Km da residência dele. Tinha apenas o 4º ano do ensino fundamental, mas notabilizou-se pelo alto saber como autodidata em Medicina. Quando tinha pouco mais de vinte anos, Seu Abdias foi “iniciado” na Medicina por Seu Aureliano Furtado, imigrante que vivia em Formoso vindo do Triângulo Mineiro. Com ele, leu centenas de livros aprendendo com maestria a farmacopeia científica, o princípio ativo dos remédios industrializados e seus efeitos nos pacientes. Também contribuiu para seu aprendizado propedêutico, as enciclopédias enviadas de Ouro Preto-MG por seu primo e bioquímico, Dr. Emídio Magalhães.
No período entre 1940 e 1990, Seu Abdias foi o único “médico” a receitar “remédios de farmácia” (como se dizia) na Região da Trijunção. A ausência do poder público (Estado) obrigava os moradores do Sertão no Brasil Central, distante dos centros civilizados do Litoral (antes de Brasília existir e o Centro-oeste se desenvolver), a ter que curar doenças por meio do Saber Tradicional das parteiras, curadores, raizeiros, benzedeiras e rezadores. Com Seu Abdias, essa população passou a contar com mais um suporte gratuito na busca de saúde (ele não cobrava por suas “receitas”, apenas os remédios). Seu Abdias foi o “farmacêutico” (boticário) das três primeiras farmácias de Formoso (as do Seu Doca – primo dele; Gerson e Vilmar – genros dele). No início dos anos 1990, deixou de receitar remédios publicamente devido a perseguição de médicos diplomados de Formoso. Mas o povo continuou procurando-o até a morte em 1994. Seu Abdias é desses raros seres humanos que nascem para fazer o bem e servir, não só o povo brasileiro, mas a Humanidade. Generoso, humilde, caridoso, sincero, ético... Tudo isso junto ainda é insuficiente para qualificar essa raridade humana que foi Seu Abdias.

Fonte: MENDES, Xiko. Formoso de Minas no final do século XX: 130 Anos!. Formoso-MG: Prefeitura Municipal, 2002, páginas 102, 449-450.
MENDES, Valdivino. Contribuição ao Centenário de Seu Abdias. Brasília-DF: 2011.

ANA PEREIRA DE SOUSA
Patronesse da Cadeira 45 da ALANEG
Titular: Nelli Ferreira Gáspio Basto– Monte Alegre de Goiás – GO.

ANA PEREIRA DE SOUSA (Januária-MG, 25/9/1905 – Paracatu-MG, 25/2/1998). Líder educacional, religiosa e política formosense. Chegou em Formoso, então distrito de São Romão-MG, em 29 de março de 1925, contratada como a primeira servidora pública dessa localidade que depois tornou-se município em 1963. Atuou como professora (até a 3ª série, hoje 4º ano do ensino fundamental) no período entre 16 de abril de 1925 (Dia da Educação Municipal em Formoso mediante lei aprovada pelos vereadores em 2005) e junho de 1952 quando se aposentou pelo Estado de Minas Gerais.
Por 25 anos lecionou em sua própria casa visto que no distrito de Formoso não havia prédio de escola embora o grupo escolar tivesse sido criado por lei provincial em 1882. Distante dos centros civilizados e abandonado pelo Poder Público, Formoso vivia isolado e nenhum professor arriscava em permanecer lecionando tanto pelas condições adversas de trabalho quanto porque o Estado eximia de sua responsabilidade. Dona Ana chegou em Formoso levada pelo então Vereador Minervino Gomes de Ornelas, que representava este distrito na Câmara Municipal de São Romão. Ele era esposo de uma tia dela, a Dona Rosa.
Em 1927 Dona Ana casou-se com Seu Florípio Alves Santana, considerado o intelectual do distrito visto por todos como o mais dedicado à cultura. Não teve filhos biológicos, mas criou um punhado de sobrinhos e crianças deficientes (que não eram parentes dela, mas eram abandonados pelas famílias). Entre agosto e setembro de 1925 teve de interromper suas aulas por causa da passagem da Coluna Prestes – assim ela conta em sua autobiografia.
Entre 1930 e 1980, ela e o marido foram representantes oficiais da Prelazia (depois Diocese) de Paracatu em Formoso. Todos os festejos católicos e demais rituais litúrgicos (batizados, casamentos...) ficaram sob a responsabilidade deste casal, motivo pelo qual se tornaram muito prestigiados como líderes comunitários.
O prestígio logrou muito êxito ao casal. Dona Ana e Seu Florípio foram vereadores de Formoso, destacando-se ambos no comando do Legislativo. Ela foi secretária da Mesa Diretora quando exerceu seu mandato no início de 1970. Em 1987, com o falecimento do marido, Dona Ana escreveu e editou às suas expensas o livro autobiográfico “Lembrança do Passado” – opúsculo no qual pontua sua trajetória, sua ancestralidade e sua contribuição à Educação e a Cultura em Formoso. Publicado em 1988, a obra é um tesouro cuja preciosidade nos emociona pela narrativa emotiva sobre um Formoso que olvidou-se, esvaneceu-se e sucumbiu-se à avalanche da modernidade. O próprio livro dela só não foi totalmente esquecido porque foi reproduzido na íntegra na obra “Formoso de Minas no final do século XX: 130 Anos”, do historiador Xiko Mendes. Recentemente, Dona Ana foi objeto de estudo na tese de doutorado da Professora Maria Zeneide Carneiro de Almeida Magalhães na Universidade de Brasília. Zeneide é filha de Formoso, pesquisadora universitária em Goiânia-GO, e membro efetivo da ALANEG – Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano e da RIDE-DF.
Educadora, líder local da Igreja Católica e agente politico-comunitário, Dona Ana foi a um só tempo mãe, mulher moderna e autônoma, culta, generosa, militante de causas sociais, mobilizadora de sua comunidade e transformadora da cruel realidade até então vivida pelo povo de Formoso, no esquecido Noroeste de Minas, Bacia do Urucuia, imortalizada nas obras de Guimarães Rosa. Nos anos 1990 foi morar com seu sobrinho e filho adotivo, Geraldo Messias Moreira de Sousa, em Paracatu, e lá ela faleceu em 1998 sendo sepultada em Formoso no mesmo jazido do marido bem na entrada do Cemitério Municipal Nossa Senhora da Abadia. Dona Ana e sua trajetória são descritas em várias obras de Xiko Mendes por sua valiosa, singular e insubstituível contribuição à história de Formoso-MG.


Fonte: MENDES, Xiko. Formoso de Minas no final do século XX: 130 Anos. Formoso-MG: Prefeitura Municipal, 2002, páginas 460-492. 

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